Desde novo que sempre gostei de ver senhores “mais entrados”
a usar bengala. Sabemos que alguns a usam porque de facto, quando bem apoiada
numa passada, os ajudam e lhes facilitam a caminhada, mas também conhecemos
quem a use por gosto, porque em bom rigor não padecem de nada que a obrigue e
porque, por várias razões todas válidas (apreciação pela bengala, gosto pelo
hábito ou por vezes por simples manias pessoais que todas as temos)
simplesmente não a dispensam.
A bengala, face à muleta, é muito menos compulsiva e
obrigatória. Esta última é quase sempre prescrita por um médico ou técnico de
fisioterapia e é essencial para a recuperação física do “paciente”. É
indispensável e a falta ou incorreção do seu uso impossibilita a recuperação e
a gestão diária das caminhadas indispensáveis para fazermos a nossa vida.
Dito isto (na minha opinião), reconheço ambas as situações
supra descritas na atualidade e funcionamento da “geringonça”, e a presente
discussão do orçamento de estado dá-nos uma excelente oportunidade para
constatar isso mesmo. De facto, e se virmos e analisarmos as atuações dos 3 (4
partidos se quiserem) partidos que a suportam, vemos o partido do Governo a
precisar e a usar tanto a bengala como a muleta.
Quiçá decorrente do resultado das últimas eleições
legislativas, ou do simples estilo dos respetivos líderes, vemos o BE e o PCP a
terem atuações muito distintas. O BE reivindica e ameaça, não tendo pejo de
anunciar todos os dias o seu caderno de encargos, e tem até já deputados e
dirigentes, como se fossem membros do governo, a dar como garantidos novos
impostos em conferências de imprensa. O PCP vai tentando fingir que não fica
atrás, mas o discurso é muito menos vigoroso, menos “zangado” e em rutura e vai
dando sinais de que, se houver aparência de reivindicações reconhecidas, todos
continuarão amigos como dantes.
O partido do Governo (ou o Governo em bom rigor pois dentro
do partido ainda há quem proteste com a subserviência que tem servido para
manter o status quo) vai tentando
usar aqueles dois partidos de forma distintas: o BE por ameaçar sempre o
equilíbrio que serve para manter o Governo em funções é gerido com pinças e até
desculpado quando se mostra demasiado voluntarioso; o PCP é tratado com
pancadinhas nas costas, quase com pesar e compaixão por aquele partido ter
sofrido o desaire que sofreu nas últimas legislativas e ter sido ofuscado pelo
BE, mas numa atitude de quem tem a confiança que facilmente chegará ali a
acordos (aumento de €10,00 nas pensões sim mas talvez só em agosto) que
permitam aprovar o orçamento e salvar a face àquele partido…
Parece claramente que o Governo encara o BE como se fosse
uma muleta sua, sem a qual não pode caminhar e assim trata essa muleta com uma
consideração bem diferente do que a que parece dar ao PCP, tratado como uma
bengala, que dá gosto usar mas que parece (repito parece) não ser essencial…
As aparências são o que são e restará ver como se aguentará
o Governo (e a “geringonça”) se o PCP, reconhecendo o papel que tem a par do BE
(independentemente do resultado das eleições, ambos os partidos são essenciais
para a maioria que sustenta o governo) adotar semelhante atitude e obrigar
assim o Governo a passar a andar com duas muletas…
A Geringonça tem “andado”, com estas nuances e vicissitudes,
mas coxeia desde que nasceu, e vamos ver se alguma vez “correrá”. É que, como acho
(e repito) as muletas “são essenciais
para a recuperação física do “paciente” (…) e a falta ou incorreção do seu uso
impossibilita a recuperação e a gestão diária das caminhadas indispensáveis
para fazermos a nossa vida” e esta “solução governativa” enquanto andar de
muletas não me parece que venha algum dia a correr.

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