quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Muleta e a Bengala

(Texto publicado na minha página do Facebook em 27.10.2016)



Desde novo que sempre gostei de ver senhores “mais entrados” a usar bengala. Sabemos que alguns a usam porque de facto, quando bem apoiada numa passada, os ajudam e lhes facilitam a caminhada, mas também conhecemos quem a use por gosto, porque em bom rigor não padecem de nada que a obrigue e porque, por várias razões todas válidas (apreciação pela bengala, gosto pelo hábito ou por vezes por simples manias pessoais que todas as temos) simplesmente não a dispensam.

A bengala, face à muleta, é muito menos compulsiva e obrigatória. Esta última é quase sempre prescrita por um médico ou técnico de fisioterapia e é essencial para a recuperação física do “paciente”. É indispensável e a falta ou incorreção do seu uso impossibilita a recuperação e a gestão diária das caminhadas indispensáveis para fazermos a nossa vida.

Dito isto (na minha opinião), reconheço ambas as situações supra descritas na atualidade e funcionamento da “geringonça”, e a presente discussão do orçamento de estado dá-nos uma excelente oportunidade para constatar isso mesmo. De facto, e se virmos e analisarmos as atuações dos 3 (4 partidos se quiserem) partidos que a suportam, vemos o partido do Governo a precisar e a usar tanto a bengala como a muleta.

Quiçá decorrente do resultado das últimas eleições legislativas, ou do simples estilo dos respetivos líderes, vemos o BE e o PCP a terem atuações muito distintas. O BE reivindica e ameaça, não tendo pejo de anunciar todos os dias o seu caderno de encargos, e tem até já deputados e dirigentes, como se fossem membros do governo, a dar como garantidos novos impostos em conferências de imprensa. O PCP vai tentando fingir que não fica atrás, mas o discurso é muito menos vigoroso, menos “zangado” e em rutura e vai dando sinais de que, se houver aparência de reivindicações reconhecidas, todos continuarão amigos como dantes.

O partido do Governo (ou o Governo em bom rigor pois dentro do partido ainda há quem proteste com a subserviência que tem servido para manter o status quo) vai tentando usar aqueles dois partidos de forma distintas: o BE por ameaçar sempre o equilíbrio que serve para manter o Governo em funções é gerido com pinças e até desculpado quando se mostra demasiado voluntarioso; o PCP é tratado com pancadinhas nas costas, quase com pesar e compaixão por aquele partido ter sofrido o desaire que sofreu nas últimas legislativas e ter sido ofuscado pelo BE, mas numa atitude de quem tem a confiança que facilmente chegará ali a acordos (aumento de €10,00 nas pensões sim mas talvez só em agosto) que permitam aprovar o orçamento e salvar a face àquele partido…

Parece claramente que o Governo encara o BE como se fosse uma muleta sua, sem a qual não pode caminhar e assim trata essa muleta com uma consideração bem diferente do que a que parece dar ao PCP, tratado como uma bengala, que dá gosto usar mas que parece (repito parece) não ser essencial…

As aparências são o que são e restará ver como se aguentará o Governo (e a “geringonça”) se o PCP, reconhecendo o papel que tem a par do BE (independentemente do resultado das eleições, ambos os partidos são essenciais para a maioria que sustenta o governo) adotar semelhante atitude e obrigar assim o Governo a passar a andar com duas muletas…


A Geringonça tem “andado”, com estas nuances e vicissitudes, mas coxeia desde que nasceu, e vamos ver se alguma vez “correrá”. É que, como acho (e repito) as muletas “são essenciais para a recuperação física do “paciente” (…) e a falta ou incorreção do seu uso impossibilita a recuperação e a gestão diária das caminhadas indispensáveis para fazermos a nossa vida” e esta “solução governativa” enquanto andar de muletas não me parece que venha algum dia a correr.

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