Muito se escreveu na altura da publicação deste livro.
Ataques, defesas, críticas e elogios e até insultos. Pessoalmente compreendo as
motivações de uns e de outros (fora os que insultam pois perdem a consideração
no debate), tanto a justificação do autor para o “full disclosure” na medida em
que só assim entendeu fazer justiça à história e interesse público nas
informações reveladas, como nos que se sentiram ofendidos e desrespeitados mas
sobretudo violados na confiança depositada.
De facto, muito do que consta no livro apenas foi revelado
ao autor na assunção e confiança de que o mesmo teria sempre reserva no que à
confidencialidade do confessado dizia respeito. Isso podem, magoados, reclamar
porque se verifica agora que não aconteceu (a reserva) e duvido que não estejam
todos arrependidos da confiança depositada.
Pessoalmente acho que não seria
capaz de escrever um livro destes, assumindo que, havendo justificação ou não,
estaria sempre a trair a confiança e a expor tantas pessoas.
No entanto, e pelo menos para mim pessoalmente há algo que
não merece contestação: o interesse público da informação revelada, sobretudo
para todos nós contribuintes e governados. De facto, acho mesmo que, se fosse
possível sem burocratizar muito o processo de decisão dos governantes, deveria
haver uma ata descritiva de todos os processos de decisão com relevância para
os contribuintes, registos estes que, 20 anos depois, deveriam ser
desclassificados e tornados acessíveis para a opinião pública.
Tal porque considero relevante (pelo menos para mim) por
exemplo saber se determinadas decisões importantes e relevantes para a vida de
todos nós foram tomadas, ou no âmbito de um processo criterioso, informado e
bem aconselhado, ou apenas por mero capricho. Por exemplo, se uma determinada
pessoa é preterida na escolha para um determinado cargo por embirração pessoal
do governante que tem a escolha a seu cargo.
Surpreendo-me mesmo aqueles que não consideram importante
saber até que ponto estamos entregues a governantes competentes ou não. E, mais
uma vez a título de exemplo e atendendo à minha sugestão de registo dos
processo de decisão, proponho imaginar o seguinte: se amanhã tivermos um antigo
primeiro ministro que agora se pretende candidatar a Presidente da República, tendo nós acesso à história da
sua governação através do tal registo que sugeri, alguma vez vamos elegê-lo se
pelos registos pudermos verificar que deixou que a sua vida pessoal, tricas,
desencontros e outras relações menos profissionais tivessem influenciado
decisões que tomou e que nos influenciaram a todos enquanto contribuintes e
governados? Eu não elegeria e a disponibilização daquela informação seria
relevante na minha escolha.
É esta a maior relevância que encontrei no livro, que achei
interessante. O ter exposto os políticos como eles são, fora da capa que sentem
necessidade de usar para a opinião pública (o que compreendo), com vícios e
fraquezas como qualquer mortal, mas sobretudo nem sempre tomando decisões nem
conduzindo as suas condutas como imaginamos.

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