quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O PCP foi derrotado nas eleições autárquicas?

Todos os partidos políticos têm um programa e supostamente (mais do que simplesmente fazer política) o seu propósito é cumprir os objectivos do mesmo. Desempenhando um determinado papel no País e na Sociedade, atuando de determinada forma na economia e posicionando-se como consideram correcto entre as “classes”.
Assim, não me parece que se possa dizer que o PCP perdeu mesmo as eleições autárquicas. E isto porquê? Porque supostamente ao tê-las perdido ganhou publicamente uma legitimidade de romper com a paz aparente existente na geringonça, e assim pôde soltar de novo os seus braços armados.
E o resultado está à vista, plasmado no orçamento de estado para 2018, onde o governo foi vergado em toda a linha e em todas as exigências dos reclamantes. Houve muito pouco taticismo político e agora o concedido a Professores, Enfermeiros etc., será reclamado por toda a restante função pública. E estão no seu direito. Resta é ver se o custo desta necessidade de agradar a todos não custará a performance da economia que tanto surpreendeu e que é fundamental manter...
Assim continuo a achar que o PCP não perdeu as eleições. E isto porque nas negociações deste orçamento cumpriu o seu programa e as classes por si representadas viram satisfeitas as suas aspirações. Se o propósito do PCP é cumprir o seu programa então foi graças à legitimidade de reivindicar, recuperada com a alegada derrota que o conseguiu. E se calhar em muitos anos nunca viu os seus putativos eleitores tão recompensados com o seu direito à luta. A derrota trouxe-lhes a vitória...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Cor da Imprensa

Tem sido comum encontrarmos quem opine e escreva na classe jornalística e política que o atual governo tem beneficiado de uma imprensa permissiva, desculpante e até que, até ao debacle Pedrógão/Tancos, vinha preferindo cavalgar e manter a onda do otimismo, mais do que ambicionando ser honesta com o passado recente. Dizem que levava o governo ao colo e que permitiu ao presente elenco governativo ter os resultados económicos que apresenta e que lhe dão o brilho cavalgado…

É verdade. Em geral este governo (como aliás tem sido comum a outros governos socialistas que se seguiram a governos de direita que serviram para endireitar as finanças) tem gozado de um estado de graça por parte da imprensa invejável. Todos os méritos lhe são atribuídos, “quase” todas as falhas lhe têm sido perdoadas e, apenas com os fracassos recentes já mencionados, alguns jornalistas tiveram o pejo de cumprir com a obrigação de dizer a verdade: o governo falhou. E claro, os suspeitos do costume que alinham em todo o lado puderam então ter as condições para vir a terreiro dizer que afinal o “Rei vai nu” e que muito mais já se notava estar errado etc…

Assim é o País, assim é a classe, e assim é a imprensa. Mas que imprensa temos nós? Deixo a minha opinião, facilmente descartável por quem não a considerar como tal (é a minha) ou que não é bem baseada etc… É a minha.

Olhando (e porque os prefiro na análise política) para os semanários, o que temos? Desde logo a Instituição (e ainda força dominante): O velho (e agora de novo) “Espesso”! Sobreviveu a tudo. Desde nos tempos de Saraiva ter sobrevivido ao Independente de Portas e ME Cardoso, o qual tinha as manchetes que faziam as pessoas esperarem pelo sábado para comprar aquele jornal, ao Sol que com Saraiva conseguiu ter o mesmo efeito nos tempos das “faces de Sócrates” na capa (e que também levava as pessoas a esperar pela abertura das bancas à sexta-feira na altura) e a todas as mudanças editoriais que as decisões de gestão da Impresa, melhor ou pior tomadas, com maior ou menor critério de gestão, foi tomando.

É um jornal que considero ter o seu contraditório assegurado. Nunca senti que Ricardo Costa tivesse uma cor ou posição política que exigisse muita compensação, e mesmo por outros lados mais de esquerda sempre achei o jornal equilibrado. Nos últimos anos e sobretudo desde a queda de Sócrates senti pessoalmente (e repito na minha opinião) menos equilíbrio mas não é ali que identifico mais presente a vénia atual feita ao governo. Essa noto-a mais, e de sobremaneira, nos diários. Mas fica também este ponto mais aberto para o rebate, pois é opinião livre.

O Sol é para mim o “outro semanário” de referência do momento. Já não tem o peso dos tempos áureos do “face oculta em direto”, nem tem já o grupo financeiro forte estrangeiro que lhe protegia os costados à época, sendo agora mais dependente da estrutura empresarial que tem por trás, que começou no seu atual Diretor e demais empresários familiares corajosos que se envolveram. Esta falta de “peso empresarial”, e de despreocupação com a necessidade de lucros que imperou noutros tempos fazem-se sentir em algumas características do jornal, desde logo na aparente nudez dos seus suplementos e na dificuldade de investimento nalgumas rubricas.

Confesso contudo que ainda é o jornal da minha preferência. Talvez porque sou uma pessoa de hábitos e há anos que me sinto habituado à linha editorial de Saraiva, que apesar de já não ser o Diretor ainda tem um jornal muito “desenhado” (poderia dizer arquitetado mas era só maldade com o complexo que sempre sentiu a classe jornalística nutrir por si por ser arquitecto) por ele.
Mas vejo se calhar este jornal mais prejudicado no seu contraditório. Tentemos “ler/perceber” o jornal: a capa mantém a sua tentativa de chamar a atenção de forma imediata e de fazer o leitor querer comprar o jornal sem abrir o jornal na banca (algo que já vem de há muito tempo e aprendido com o Independente); segue-se a coluna do atual Diretor Mário Ramires, como tem e deve ser; de seguida a de Saraiva enquanto Colaborador que é agora, Diretor fundador e portador do peso e interesse político que mantém. Fazendo aqui uma pausa e opinando pessoalmente sinto Ramires mais ao centro (da “nossa política nacional” e não do conceito internacional de linha política) e Saraiva mais à direita, apesar de eu achar que o mesmo sempre se considerou de esquerda mas que se desiludiu muito com Sócrates e com o PS desde esse momento, tendo ao mesmo tempo ganho muita consideração pelo “mouro” Passos. De seguida neste jornal temos algumas peças dos jornalistas com mais cartilha (Felícia Cabrita, Ana Petronilho entre outros) e a primeira crónica das que se seguem aos pilares, assinada por Ana Sá Lopes que alguma maldade diz que tem aquele lugar mais por antiguidade que outra coisa mas são opiniões de pessoas que de certo desconhecem a sua experiência no meio e sapiência na abordagem aos temas.

Mas de onde vem o desequilíbrio no contraditório parte do já descrito e do que se lhe tem seguido. A estrela emergente, de seu nome Sebastião Bugalho, parece-me claramente pouco ao centro. Assina notícias com peso e a sua crónica é já a quarta na ordem do destaque. Sinto-o claramente mais à direita e desiludido com um país no qual as pessoas parecem ter vergonha de admitirem que o são (de direita). Critica e defende o PSD, protagonistas e ocultos, Passos e os seus assumidos e falsos opositores. Consegue entrevistar Faragge e Daniel Oliveira com a mesma objetividade e sem deixar convicções pessoais definirem o rumo da entrevista. Mas ele está lá, e noto-o repito como a estrela emergente, por mérito próprio e trabalho feito, e de direita. E gosto de ler o que pensa e escreve.

No entanto, seguindo aquela Ordem, partindo de Ramires, subindo no tom com Saraiva e indo dar a Bugalho, acho que a linha do jornal fica com uma linha muito definida (se a seguir só lermos Sofia Vala Rocha então mais pronunciada fica). Sim, sei que muitos mais escrevem no mesmo jornal e que é dado espaço à esquerda, alguns mesmo assumindo isso mesmo, que ali estão para serem contraponto. Mas o jornal é aquele, e nota-se: experimentem não ler as colunas de opinião e apenas ler as notícias e acho que tal ficará ainda mais óbvio.

Mas isto e este jornal é negativo? Não. Com a imprensa nacional atual com cores e sentimentos tão declarados, preferindo a maioria seguir com as marés e ser gostada por todos a começar pelo governo, o Sol tem um papel marcado e importante. Porque ainda há quem não ande a dormir e saiba que há realidades que só andam a ser escamoteadas, por mais que os Galambas, Pedros Nunos Santos e Miguéis Tiagos continuem a aparecer sempre zangados com os austeros culpados de todos os males….

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Que oposição para Marcelo?



Bem sei que ainda estamos a uns bons anos das próximas eleições presidenciais, mas vendo o que fez Marcelo do seu mandato até agora, tento imaginar quem terá condições para concorrer contra ele…

Esta onda de popularidade proporcionada pela nova primavera marcelista vivida a meias com o governo (até ao debacle Pedrógão/Tancos) faria com que, se fossem hoje as próximas eleições, nenhum peso mais pesado se propusesse contra Marcelo. Digo “mais pesado” porque nas últimas eleições o mais próximo disso que tivemos foi Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, que não são quanto a mim figuras fortíssimas de um partido político ou da Sociedade. Sampaio da Nóvoa foi amputado do apoio que António Costa lhe deu a entender que daria e Maria de Belém não conseguiu operacionalizar uma campanha à la Hillary Clinton.

Ainda não era na altura Marcelo o colosso popular que é hoje (já era muito popular mas como presidente escalou os afetos a novos píncaros) e já meteu o medo que meteu, por isso imagine-se se mantém esta aceitação popular até às próximas eleições…!

Mas como dito, ainda faltam uns anos e muita coisa pode acontecer. Por isso imagino dois cenários:

- (i)o Governo sobrevive ao mau momento atual e restabelece o passeio de Marcelo e Costa de braço dado pela baixa de Lisboa até às eleições. A ser assim vejo Marcelo impossível de derrotar e admito mesmo que o PS, numa jogada eleitoral e para aproveitar a simpatia do Presidente, o venha a apoiar nessas eleições (Cavaco quando era Primeiro-Ministro apoiou Soares numas eleições presidenciais ainda que não o tenha feito com o mesmo calculismo que penso que estará na base do apoio do PS). PSD e CDS farão o seu papel como fizeram na última eleição, engolindo o sapo de não se reverem na performance deste Presidente. Restará ver se o resto da esquerda geringonça resistirá à sua tacanhez ideológica de sentir que não podemos nem devemos ter um Presidente de direita, eles que até deveriam estar gratos a este Presidente que tanto tem apoiado e dado condições de trabalho a esta solução de governo…O PCP deverá apresentar sempre um candidato, está na sua genética e é como as cassetes, têm que manter a cadência para tentar o hipnotismo por repetição…e no limite acham que é importante para manterem fixo e mobilizado o seu eleitorado;

- (ii) as coisas azedam entre Presidente e Governo. Não é impossível acontecer. Marcelo não parece mas não tem um perfil fácil, e que só tem sido entranhado por Costa porque o tem servido. Aliás, de perfil Marcelo é mesmo único enquanto Presidente pois tem sido interventivo como já não se via desde Ramalho Eanes. Lembremos a história desde o 25 de Abril e sem incluirmos Spínola e Costa Gomes (que foram Presidentes num contexto diferente). Eanes era um general e assim se comportou com os governos, aliás podemos dizer que a revisão constitucional de 1982 se destinou a acabar com o Conselho da Revolução e criar o Tribunal Constitucional mas acho que os envolvidos aceitam que se diga também que serviu para tirar poder a Eanes, que criticava acerrimamente as atuações dos governos e sempre com a ameaça de dissolução do parlamento latente. Soares não pretendeu governar de Belém mas teve a originalidade de conseguir fazer oposição a partir de lá. Sampaio foi um Presidente cuja maior relevância foi expulsar a má moeda e Cavaco cumpriu calendário. Mas Marcelo está pela primeira vez a governar o mais possível a partir de Belém. Basta ver as capas dos jornais “Marcelo segura Ministra”, “Marcelo já chamou Azeredo Lopes sobre Tancos”…acho mesmo que nem António Costa alguma vez sonhou que Marcelo fosse intervir tanto…As possibilidades do ambiente azedar são várias, desde a possibilidade da economia abrandar e Marcelo se voltar a aborrecer com os otimismos irritantes, a Costa se fartar de tanta intervenção ou disso lhe ser criticado internamente no partido, aos partidos geringonços não controlarem os seus ímpetos mais conservadores e se lembrarem de criticar Marcelo retirando o cor-de-rosa à relação Marcelo-Costa, etc. etc….Neste cenário vejo Marcelo eleito na mesma mas com o PS a ver-se forçado a encontrar um candidato que esteja disposto a ser humilhado.

Acho impossível antecipar tudo o que pode acontecer nos próximos anos mas existem sinais de que o status quo não ficará imutável. Os falhanços do governo em Pedrógão e Tancos e o erro estratégico de Costa ao não deixar cair os ministros ainda não denunciaram a posição de Marcelo face ao problema. Digo erro estratégico porque os ministros saíram muito fragilizados de ambas as situações, perderam autoridade e respeito nas suas hierarquias e não percebo a relevância para Costa de os manter nos cargos. Não perder a face com uma remodelação? Acho que a tê-la feito iria mostrar mesmo o oposto: uma reação pronta e enérgica de um governo que não quer perder o élan que tantos elogios lhe ia valendo e que colocava o PS já perto da maioria absoluta nas sondagens. Costa podia inclusive ter aproveitado para fazer uma remodelação maior mudando algumas caras que menos têm brilhado e dava assim um sinal importante à Sociedade, mostrando que está atento e que não irá facilitar perante os falhanços.


Pedrógão e Tancos vieram mostrar que nada dura para sempre assim como o facto da relação Marcelo-Costa não estar imune a insucessos que tirem brilho aos protagonistas. Mas Marcelo saiu incólume e mantém-se muito popular junto dos portugueses. Aconteça o que acontecer falta ainda aparecer alguém que nos faça acreditar que as próximas eleições presidenciais terão algum tipo de interesse.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Que Passos pode Coelho dar?

Tenho que começar por dizer que a posição e o desempenho de um líder da oposição em Portugal é, do ponto de vista da sua análise, ingrata e desequilibrada.

Isto porque é um cargo que é visto como sendo desempenhado de uma forma isolada, responsável por todas as decisões e opiniões emitidas pelo próprio e que tem que “pagar” pessoalmente (com o respetivo custo de capital político) pelos sucessos do partido que está no governo.

De facto, o primeiro-ministro e respetivos ministros desempenham cargos com relevância direta na vida dos cidadãos, tomam decisões diariamente, são conhecidos e aparecem nos media a falar todos os dias sobre os assuntos que são da sua competência. O primeiro-ministro não está sozinho quando é analisado, sendo que inclusive as decisões tomadas na área de cada ministro são escrutinadas e avaliadas sendo atribuído o mérito ou demérito ao respetivo. Os cidadãos e os media conhecem os membros do governo (pelo menos os ministros e penso que alguns secretários de estado) e acompanham diariamente a sua atividade.

No entanto tal não acontece com a oposição. Para os cidadãos e para os media (no que reportam, havendo alguns jornalistas que sendo especialistas na matéria aqui excetuo) conhecidos são sobretudo os líderes dos partidos (e noutra escala eventualmente os chefes das bancadas parlamentares). De resto ninguém conhece os pretensos membros do governo sombra, ninguém sabe quem está na cúpula partidária mais próxima do líder, quem participa no seu processo de decisão ou eventualmente influenciou e ajudou a decidir determinada tomada de posição ou declaração pública.
Ou seja, e resumindo, o líder oposição partilha menos visibilidade com a sua equipa por razões óbvias, tem muito menos tempo de antena do que um governante, não toma decisões que influenciam diretamente os cidadãos, e apenas é atribuída importância e analisado aquilo que diz nas ocasiões públicas em que por vezes aparece.

É um assim um papel ingrato e avaliado de uma forma ingrata. Ainda pior quando os ventos sopram de feição ao governo pois aí inversamente é olhado de lado como se, pelo governo ter sucesso, tal possa significar que não representa uma alternativa válida e que o seu programa não é o que serve o país. E como isso é injusto para Passos, cuja governação preparou o terreno para que o atual governo colhesse os frutos e, sem pudor, os louros. Inversamente sabemos que quando a governação apresenta maus resultados e se começam a avizinhar crises políticas o líder da oposição equilibra os pratos no que à atenção mediática diz respeito. Nessas alturas a imprensa procura-o diariamente para o ouvir clamar por mudança e ávida de conhecer as suas propostas e programa caso venha a governar (o que em Portugal nunca acontece preferindo os políticos sempre falar do sucesso futuro sem revelar alguma vez a receita).

Dito isto, é aqui que se encontra Passos Coelho. Líder da oposição num tempo de vacas gordas para o atual governo, tendo a sua pegada histórica ficado indelevelmente ligada à imagem da austeridade. É uma posição complicada. E vendo-o fragilizado pela mesma logo aparecem dentro do seu próprio partido os suspeitos do costume (como os há em todos os partidos) que cobardemente capitalizam o momento quando lhes cheira a fraqueza e vão propondo-se para mudanças. Considero isto pessoalmente um erro e uma deslealdade pois o partido deve muito a Passos Coelho, sobretudo o facto de ter governado inabalável na execução de um programa que ele sabia que ia custar votos mas que acreditava que era a única solução para o país. E pessoalmente também acho que um dia o país e a nossa história escrita lhe farão justiça. Daqui a muitos anos, como acontece sempre.

Não incluo neste rol de desalinhados oportunistas Rui Rio. Este sempre foi um putativo candidato, tem um programa e uma agenda própria e poder-se-ia candidatar à liderança do partido em qualquer outro momento não precisando de apanhar Passos Coelho na “mó de baixo” para achar que a sua candidatura faz sentido. Sempre pertenceu a uma linha diferente, postula uma solução diferente e, pelo que fez, tem e terá sempre o direito a avançar. Incluo neste rol os restantes que já vieram a terreiro e que acham que o momento difícil que atravessa Passos poderá desviar as atenções do facto de terem um curriculum político ainda insuficiente para um projeto de liderança.

Mas então que poderia Passos fazer de diferente para não ser visto como eclipsado? Na minha opinião (e voltando a frisar que em todo o caso os tempos estão muito adversos para se fazer oposição) só há um rumo: marcar a agenda mostrando como se deveria governar e que alternativas existem a este frenesim “desreformista”.

Se Passos se dedicar a estudar os problemas do País, se ele se rodear das pessoas certas e mais competentes em cada área da sociedade civil, e se procurar ter uma agenda intensa e presente, poderá adquirir uma outra visibilidade. Terá que ir ao encontro dos eleitores com propostas, identificando os problemas e apresentando aquelas que seriam as suas soluções e, se estas forem bem trabalhadas e de encontro à raiz do problema, Passos poderá ainda ver sentado o governo a aplicá-las (se a sobranceria e orgulho não os impedir de prestarem esse serviço ao País).

Como as coisas estão Passos não pode fazer de morto e esperar que o governo meta água e surjam eleições. Pior, as autárquicas, a meu ver, ainda irão agravar mais a situação. E assim não se verificarão as circunstâncias normais de governo cair e a oposição tomar o poder. Pelo contrário, o cenário atípico atual até fará com que o mais provável seja o governo cair mas o PS ganhar as eleições seguintes com maioria absoluta.

E assim, e por tudo isto, repito: Passos só tem uma opção: mostrar que está vivo, que o seu programa de austeridade foi executado e faz parte do passado (este discurso desconheço porque ainda não saiu da gaveta) e que tem uma agenda para o país, que conhece os seus problemas que tem as melhores propostas para cada um, sendo ele a maior garantia de um governo para o futuro.

Foi o líder de um governo que tirou o país da bancarrota, ganhou as últimas eleições e é o líder do maior partido da oposição. As pessoas têm que se lembrar que o HOMEM está ali, têm que se lembrar como foi afastado do poder e têm que saber o que teria feito se o tivessem deixado governar.

Ainda é tempo e está na hora. Portugal ficaria grato. Eu já estou.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Os últimos paladinos românticos da esquerda puseram-se a descoberto…e o camaleão da direita está a pôr-se a jeito

(Texto publicado na minha conta de Facebook em 17.02.2017)



Que fartote teriam feito o Bloco e o PCP com esta polémica da CGD se ainda tivéssemos um governo da direita coligada! Catarina Martins, no seu estilo mais zangado (confesso que não gosto de políticos zangados, para mim os Galambas, Miguéis Tiagos, Pedros Nuno Santos etc., quando discursam com ar zangado e com ar de desprezo e despeito para os seus colegas de hemiciclo, perdem a atenção dos colegas tribunos e o respeito dos populares interessados), e Jerónimo no seu tom de Avô “magoado por não o deixarem proteger melhor os seus netos trabalhadores” estariam neste momento a viver dias de glória e protagonismo…derrubariam o Ministro e com isso inventariam canções sobre o feito para serem cantadas por gerações e gerações…

Mas assim é a política. Para mim, desde que assisto e me interesso por política, sempre tinha visto o PCP (porque até aos nossos tempos nunca tinham feito parte de uma solução de governo) como se vendendo incorruptível, mais, como defensor das vítimas de uma real politik que rejeitava, como denunciadores de jogos políticos que não eram mais do que isso e que apenas serviam os jogadores e prejudicavam o povo. O Bloco, mais pueril pela idade, não teve no entanto qualquer pejo em assumir a mesma atitude de ofendido face ao jogo corrupto de interesses que a seu ver marcava a política nacional…

Eis se não quando, reféns da única proximidade ao poder que alguma tiveram, os vemos nus, a fazerem um puro e duro jogo político, jogando com as suas regras como quem sempre as conheceu. Chamo a isso, quer o escamotear que fazem do que Centeno fez (pelo Amor De Deus contratem-lhe um assessor de imagem que o proíba de sorrir a bem da sua tentativa de vender uma imagem confiante e competente), quer o veto que têm feito às audições que o provariam….

Qualquer eleitor (até os eleitores daqueles partidos) se perguntará o porquê de, “havendo a possibilidade de se comprovar que um Ministro mentiu aos seus governados, e de tal ser possível aferir através de uma audição numa qualquer comissão de inquérito”, teRmos estes partidos, paladinos da verdade e da proteção ao povo, a impedir que ele seja “meramente” ouvido numa comissão. O que pretendem esconder, eles que nunca esconderam nada…

Pois foi, descobrimos que o Rei vai nu e que estes partidos, tão sobranceiros e arrogantes no que ao desprezo pelos seus menores o eram, afinal, têm os mesmos limites e armas que aqueles últimos…política é política e estes são tão políticos como os outros…

Não concordo nem acho que sirva ao país a demissão de Centeno. Isto porque ele é o mentor de uma política que continuará a ser seguida para o bem e para o mal e mais vale ter o mentor ao leme do que derrubá-lo e esperar que um substituto tenha igual sucesso. Mas percebo a direita e o que está a fazer, o Ministro mentiu e nas regras da política quem faz oposição tem que exigir a sua demissão, sobre a pretensão de proteger o povo mas em bom rigor apenas jogando o jogo político. O que eu não esperava era que os paladinos incorruptíveis ao jogo da política jogassem o jogo com a mesma falta de escrúpulos…logo eles….

Muito se especulou sobre o que para serviria a geringonça, para mim já serviu para isto: para quebrar uma imagem que eu tinha desde novo, que aquela esquerda não pactuava nem vivia de jogos políticos, tal defensora do povo que era…


P.S. O nosso camaleão da direita, fiel a si mesmo e ao que já era há vários anos de comentário (e sobretudo na sua campanha em que entre A e B sempre respondeu C) continua alegremente de braço dado com o governo, esperando ser amado por todos. Tenho uma dúvida: se por algum acaso “surpreendente e inesperado” (como o que aconteceu a Sócrates em 2008) as coisas não correrem bem e este governo se vir obrigado a demitir-se, será que o camaleão também tentará emular a cor encarnada?

A Muleta e a Bengala II – Os reféns

Texto publicado na minha conta do Facebook em 24.11.2016)



A negociação do orçamento de estado em curso é um momento excelente para observamos e interpretarmos os comportamentos dos protagonistas. Quem vê a pose, discurso e sorriso presunçoso dos representantes do Bloco, de quem sente que tem as rédeas na mão, continua a acreditar que o Bloco tem o PS refém das suas reivindicações.

De facto, aquela presunção que levam para todo o lado onde discursam, sempre a anunciar pretensas linhas vermelhas e limites para aprovação do orçamento, em muito destoa do tom mais sereno do PCP.

Mas em bom rigor, e como já tem vindo a tornar-se óbvio, o PS está tão refém do Bloco como o Bloco do PS. De facto, desde a fundação daquele partido, nunca estiveram tão perto do poder como agora, quase conseguindo governar da sua bancada parlamentar, não no que acaba promulgado mas no que aos atos de governação diz respeito, e dou como exemplo a forma como se acham no direito de aprovar e desmandar nomeações, apontar falhas com ameaças (o discurso de Catarina Martins dirigido a António Costa sobre o Banif foi uma afronta que não deve ter passado sem registo) ou defender membros do governo como se de membros do seu partido se tratassem.

Assim, nota-se que, ao mesmo tempo que presunçosamente se passeiam e discursam como se levassem o PS atrás preso com uma corda ao pescoço, muitas vezes acabam por engolir sapos atrás de sapos pois sabem que, se tiverem que “bancar” (gosto de usar este termo em relação ao Bloco pois estimam muito a Banca) algum dos muitos bluffs que já fizeram nas ameaças ao governo (Caixa, pensões etc.) e de facto vierem a provocar a queda do governo, então tão depressa não voltarão a estar tão perto do poder e da governação…

Acho mesmo que sabem que, com o PS a subir nas sondagens, António Costa facilmente aceitará uma qualquer pequena crise política para deixar cair o Governo e provocar eleições nas quais espera conseguir uma maioria absoluta que lhe permita governar sem as grilhetas da geringonça…e é por isto que os vemos tantas vezes apaniguadamente a anunciar e a cantar a harmonia da solução governativa em vigor (apesar de ser notório o conflito Bloco/PCP).

Na noite das eleições depois de ver a festa da coligação pela vitória e o discurso que “apelava ao PS que estivesse à altura das suas responsabilidades” fiquei ainda mais curioso para ouvir António Costa. Surpreendeu-me enquanto caminhava para discursar que não fosse com um de derrota, mas com o tal sorriso presunçoso de quem acha que sabe mais que outros, e depois do ouvir dizer que “o PS estaria à altura das suas responsabilidades” (com o tom e cara com que o disse) percebi perfeitamente que não havia qualquer intenção de negociar com a coligação e que a agenda era outra. 

O malabarismo foi tal que permitiu aprovar um governo e governar até agora, dependente sim do Bloco e PCP mas governando a seu bel prazer com aparência de cedências aqui e ali, mas nada que alguma vez se assemelhe ao cumprimento de um caderno de encargos.

As pretensas vitórias que o Bloco tem conseguido com a solução que integra são uma pequena sombra do seu programa de governo e ainda menos do seu programa eleitoral mas o importante não era nada disso, era tirar quem lá estava…o programa eleitoral agora facilmente se “troca por miúdos” a bem de manter o status quo e a aparência de poder, ainda que isso possa defraudar quem votou no partido.


Há pouco tempo quando numa entrevista perguntaram a Trump se não se sentia mal por afinal agora, não parecer que quer cumprir muito do que anunciou na campanha, ele respondeu tranquilamente: “Arrependido porquê? Ganhei não ganhei?!...”. 

Eu e os políticos

(Texto publicado na minha página do Facebook em 16.11.2016)

Muito se escreveu na altura da publicação deste livro. Ataques, defesas, críticas e elogios e até insultos. Pessoalmente compreendo as motivações de uns e de outros (fora os que insultam pois perdem a consideração no debate), tanto a justificação do autor para o “full disclosure” na medida em que só assim entendeu fazer justiça à história e interesse público nas informações reveladas, como nos que se sentiram ofendidos e desrespeitados mas sobretudo violados na confiança depositada.

De facto, muito do que consta no livro apenas foi revelado ao autor na assunção e confiança de que o mesmo teria sempre reserva no que à confidencialidade do confessado dizia respeito. Isso podem, magoados, reclamar porque se verifica agora que não aconteceu (a reserva) e duvido que não estejam todos arrependidos da confiança depositada. 

Pessoalmente acho que não seria capaz de escrever um livro destes, assumindo que, havendo justificação ou não, estaria sempre a trair a confiança e a expor tantas pessoas.

No entanto, e pelo menos para mim pessoalmente há algo que não merece contestação: o interesse público da informação revelada, sobretudo para todos nós contribuintes e governados. De facto, acho mesmo que, se fosse possível sem burocratizar muito o processo de decisão dos governantes, deveria haver uma ata descritiva de todos os processos de decisão com relevância para os contribuintes, registos estes que, 20 anos depois, deveriam ser desclassificados e tornados acessíveis para a opinião pública.

Tal porque considero relevante (pelo menos para mim) por exemplo saber se determinadas decisões importantes e relevantes para a vida de todos nós foram tomadas, ou no âmbito de um processo criterioso, informado e bem aconselhado, ou apenas por mero capricho. Por exemplo, se uma determinada pessoa é preterida na escolha para um determinado cargo por embirração pessoal do governante que tem a escolha a seu cargo.

Surpreendo-me mesmo aqueles que não consideram importante saber até que ponto estamos entregues a governantes competentes ou não. E, mais uma vez a título de exemplo e atendendo à minha sugestão de registo dos processo de decisão, proponho imaginar o seguinte: se amanhã tivermos um antigo primeiro ministro que agora se pretende candidatar a Presidente  da República, tendo nós acesso à história da sua governação através do tal registo que sugeri, alguma vez vamos elegê-lo se pelos registos pudermos verificar que deixou que a sua vida pessoal, tricas, desencontros e outras relações menos profissionais tivessem influenciado decisões que tomou e que nos influenciaram a todos enquanto contribuintes e governados? Eu não elegeria e a disponibilização daquela informação seria relevante na minha escolha.


É esta a maior relevância que encontrei no livro, que achei interessante. O ter exposto os políticos como eles são, fora da capa que sentem necessidade de usar para a opinião pública (o que compreendo), com vícios e fraquezas como qualquer mortal, mas sobretudo nem sempre tomando decisões nem conduzindo as suas condutas como imaginamos.