Tenho que começar por dizer que a posição e o desempenho de
um líder da oposição em Portugal é, do ponto de vista da sua análise, ingrata e
desequilibrada.
Isto porque é um cargo que é visto como sendo desempenhado
de uma forma isolada, responsável por todas as decisões e opiniões emitidas
pelo próprio e que tem que “pagar” pessoalmente (com o respetivo custo de
capital político) pelos sucessos do partido que está no governo.
De facto, o primeiro-ministro e respetivos ministros
desempenham cargos com relevância direta na vida dos cidadãos, tomam decisões
diariamente, são conhecidos e aparecem nos media
a falar todos os dias sobre os assuntos que são da sua competência. O
primeiro-ministro não está sozinho quando é analisado, sendo que inclusive as
decisões tomadas na área de cada ministro são escrutinadas e avaliadas sendo
atribuído o mérito ou demérito ao respetivo. Os cidadãos e os media conhecem os membros do governo
(pelo menos os ministros e penso que alguns secretários de estado) e acompanham
diariamente a sua atividade.
No entanto tal não acontece com a oposição. Para os cidadãos
e para os media (no que reportam,
havendo alguns jornalistas que sendo especialistas na matéria aqui excetuo)
conhecidos são sobretudo os líderes dos partidos (e noutra escala eventualmente
os chefes das bancadas parlamentares). De resto ninguém conhece os pretensos
membros do governo sombra, ninguém sabe quem está na cúpula partidária mais
próxima do líder, quem participa no seu processo de decisão ou eventualmente
influenciou e ajudou a decidir determinada tomada de posição ou declaração
pública.
Ou seja, e resumindo, o líder oposição partilha menos visibilidade
com a sua equipa por razões óbvias, tem muito menos tempo de antena do que um
governante, não toma decisões que influenciam diretamente os cidadãos, e apenas
é atribuída importância e analisado aquilo que diz nas ocasiões públicas em que
por vezes aparece.
É um assim um papel ingrato e avaliado de uma forma ingrata.
Ainda pior quando os ventos sopram de feição ao governo pois aí inversamente é
olhado de lado como se, pelo governo ter sucesso, tal possa significar que não
representa uma alternativa válida e que o seu programa não é o que serve o
país. E como isso é injusto para Passos, cuja governação preparou o terreno
para que o atual governo colhesse os frutos e, sem pudor, os louros.
Inversamente sabemos que quando a governação apresenta maus resultados e se
começam a avizinhar crises políticas o líder da oposição equilibra os pratos no
que à atenção mediática diz respeito. Nessas alturas a imprensa procura-o
diariamente para o ouvir clamar por mudança e ávida de conhecer as suas
propostas e programa caso venha a governar (o que em Portugal nunca acontece
preferindo os políticos sempre falar do sucesso futuro sem revelar alguma vez a
receita).
Dito isto, é aqui que se encontra Passos Coelho. Líder da
oposição num tempo de vacas gordas para o atual governo, tendo a sua pegada
histórica ficado indelevelmente ligada à imagem da austeridade. É uma posição
complicada. E vendo-o fragilizado pela mesma logo aparecem dentro do seu
próprio partido os suspeitos do costume (como os há em todos os partidos) que
cobardemente capitalizam o momento quando lhes cheira a fraqueza e vão
propondo-se para mudanças. Considero isto pessoalmente um erro e uma
deslealdade pois o partido deve muito a Passos Coelho, sobretudo o facto de ter
governado inabalável na execução de um programa que ele sabia que ia custar votos
mas que acreditava que era a única solução para o país. E pessoalmente também
acho que um dia o país e a nossa história escrita lhe farão justiça. Daqui a
muitos anos, como acontece sempre.
Não incluo neste rol de desalinhados oportunistas Rui Rio.
Este sempre foi um putativo candidato, tem um programa e uma agenda própria e
poder-se-ia candidatar à liderança do partido em qualquer outro momento não
precisando de apanhar Passos Coelho na “mó de baixo” para achar que a sua
candidatura faz sentido. Sempre pertenceu a uma linha diferente, postula uma
solução diferente e, pelo que fez, tem e terá sempre o direito a avançar.
Incluo neste rol os restantes que já vieram a terreiro e que acham que o
momento difícil que atravessa Passos poderá desviar as atenções do facto de
terem um curriculum político ainda insuficiente para um projeto de liderança.
Mas então que poderia Passos fazer de diferente para não ser
visto como eclipsado? Na minha opinião (e voltando a frisar que em todo o caso os
tempos estão muito adversos para se fazer oposição) só há um rumo: marcar a
agenda mostrando como se deveria governar e que alternativas existem a este
frenesim “desreformista”.
Se Passos se dedicar a estudar os problemas do País, se ele
se rodear das pessoas certas e mais competentes em cada área da sociedade
civil, e se procurar ter uma agenda intensa e presente, poderá adquirir uma
outra visibilidade. Terá que ir ao encontro dos eleitores com propostas,
identificando os problemas e apresentando aquelas que seriam as suas soluções
e, se estas forem bem trabalhadas e de encontro à raiz do problema, Passos
poderá ainda ver sentado o governo a aplicá-las (se a sobranceria e orgulho não
os impedir de prestarem esse serviço ao País).
Como as coisas estão Passos não pode fazer de morto e
esperar que o governo meta água e surjam eleições. Pior, as autárquicas, a meu
ver, ainda irão agravar mais a situação. E assim não se verificarão as circunstâncias
normais de governo cair e a oposição tomar o poder. Pelo contrário, o cenário
atípico atual até fará com que o mais provável seja o governo cair mas o PS
ganhar as eleições seguintes com maioria absoluta.
E assim, e por tudo isto, repito: Passos só tem uma opção:
mostrar que está vivo, que o seu programa de austeridade foi executado e faz
parte do passado (este discurso desconheço porque ainda não saiu da gaveta) e
que tem uma agenda para o país, que conhece os seus problemas que tem as
melhores propostas para cada um, sendo ele a maior garantia de um governo para
o futuro.
Foi o líder de um governo que tirou o país da bancarrota,
ganhou as últimas eleições e é o líder do maior partido da oposição. As pessoas
têm que se lembrar que o HOMEM está ali, têm que se lembrar como foi afastado
do poder e têm que saber o que teria feito se o tivessem deixado governar.
Ainda é tempo e está na hora. Portugal ficaria grato.
Eu já estou.

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