quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Muleta e a Bengala II – Os reféns

Texto publicado na minha conta do Facebook em 24.11.2016)



A negociação do orçamento de estado em curso é um momento excelente para observamos e interpretarmos os comportamentos dos protagonistas. Quem vê a pose, discurso e sorriso presunçoso dos representantes do Bloco, de quem sente que tem as rédeas na mão, continua a acreditar que o Bloco tem o PS refém das suas reivindicações.

De facto, aquela presunção que levam para todo o lado onde discursam, sempre a anunciar pretensas linhas vermelhas e limites para aprovação do orçamento, em muito destoa do tom mais sereno do PCP.

Mas em bom rigor, e como já tem vindo a tornar-se óbvio, o PS está tão refém do Bloco como o Bloco do PS. De facto, desde a fundação daquele partido, nunca estiveram tão perto do poder como agora, quase conseguindo governar da sua bancada parlamentar, não no que acaba promulgado mas no que aos atos de governação diz respeito, e dou como exemplo a forma como se acham no direito de aprovar e desmandar nomeações, apontar falhas com ameaças (o discurso de Catarina Martins dirigido a António Costa sobre o Banif foi uma afronta que não deve ter passado sem registo) ou defender membros do governo como se de membros do seu partido se tratassem.

Assim, nota-se que, ao mesmo tempo que presunçosamente se passeiam e discursam como se levassem o PS atrás preso com uma corda ao pescoço, muitas vezes acabam por engolir sapos atrás de sapos pois sabem que, se tiverem que “bancar” (gosto de usar este termo em relação ao Bloco pois estimam muito a Banca) algum dos muitos bluffs que já fizeram nas ameaças ao governo (Caixa, pensões etc.) e de facto vierem a provocar a queda do governo, então tão depressa não voltarão a estar tão perto do poder e da governação…

Acho mesmo que sabem que, com o PS a subir nas sondagens, António Costa facilmente aceitará uma qualquer pequena crise política para deixar cair o Governo e provocar eleições nas quais espera conseguir uma maioria absoluta que lhe permita governar sem as grilhetas da geringonça…e é por isto que os vemos tantas vezes apaniguadamente a anunciar e a cantar a harmonia da solução governativa em vigor (apesar de ser notório o conflito Bloco/PCP).

Na noite das eleições depois de ver a festa da coligação pela vitória e o discurso que “apelava ao PS que estivesse à altura das suas responsabilidades” fiquei ainda mais curioso para ouvir António Costa. Surpreendeu-me enquanto caminhava para discursar que não fosse com um de derrota, mas com o tal sorriso presunçoso de quem acha que sabe mais que outros, e depois do ouvir dizer que “o PS estaria à altura das suas responsabilidades” (com o tom e cara com que o disse) percebi perfeitamente que não havia qualquer intenção de negociar com a coligação e que a agenda era outra. 

O malabarismo foi tal que permitiu aprovar um governo e governar até agora, dependente sim do Bloco e PCP mas governando a seu bel prazer com aparência de cedências aqui e ali, mas nada que alguma vez se assemelhe ao cumprimento de um caderno de encargos.

As pretensas vitórias que o Bloco tem conseguido com a solução que integra são uma pequena sombra do seu programa de governo e ainda menos do seu programa eleitoral mas o importante não era nada disso, era tirar quem lá estava…o programa eleitoral agora facilmente se “troca por miúdos” a bem de manter o status quo e a aparência de poder, ainda que isso possa defraudar quem votou no partido.


Há pouco tempo quando numa entrevista perguntaram a Trump se não se sentia mal por afinal agora, não parecer que quer cumprir muito do que anunciou na campanha, ele respondeu tranquilamente: “Arrependido porquê? Ganhei não ganhei?!...”. 

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