sexta-feira, 28 de julho de 2017

Que oposição para Marcelo?



Bem sei que ainda estamos a uns bons anos das próximas eleições presidenciais, mas vendo o que fez Marcelo do seu mandato até agora, tento imaginar quem terá condições para concorrer contra ele…

Esta onda de popularidade proporcionada pela nova primavera marcelista vivida a meias com o governo (até ao debacle Pedrógão/Tancos) faria com que, se fossem hoje as próximas eleições, nenhum peso mais pesado se propusesse contra Marcelo. Digo “mais pesado” porque nas últimas eleições o mais próximo disso que tivemos foi Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, que não são quanto a mim figuras fortíssimas de um partido político ou da Sociedade. Sampaio da Nóvoa foi amputado do apoio que António Costa lhe deu a entender que daria e Maria de Belém não conseguiu operacionalizar uma campanha à la Hillary Clinton.

Ainda não era na altura Marcelo o colosso popular que é hoje (já era muito popular mas como presidente escalou os afetos a novos píncaros) e já meteu o medo que meteu, por isso imagine-se se mantém esta aceitação popular até às próximas eleições…!

Mas como dito, ainda faltam uns anos e muita coisa pode acontecer. Por isso imagino dois cenários:

- (i)o Governo sobrevive ao mau momento atual e restabelece o passeio de Marcelo e Costa de braço dado pela baixa de Lisboa até às eleições. A ser assim vejo Marcelo impossível de derrotar e admito mesmo que o PS, numa jogada eleitoral e para aproveitar a simpatia do Presidente, o venha a apoiar nessas eleições (Cavaco quando era Primeiro-Ministro apoiou Soares numas eleições presidenciais ainda que não o tenha feito com o mesmo calculismo que penso que estará na base do apoio do PS). PSD e CDS farão o seu papel como fizeram na última eleição, engolindo o sapo de não se reverem na performance deste Presidente. Restará ver se o resto da esquerda geringonça resistirá à sua tacanhez ideológica de sentir que não podemos nem devemos ter um Presidente de direita, eles que até deveriam estar gratos a este Presidente que tanto tem apoiado e dado condições de trabalho a esta solução de governo…O PCP deverá apresentar sempre um candidato, está na sua genética e é como as cassetes, têm que manter a cadência para tentar o hipnotismo por repetição…e no limite acham que é importante para manterem fixo e mobilizado o seu eleitorado;

- (ii) as coisas azedam entre Presidente e Governo. Não é impossível acontecer. Marcelo não parece mas não tem um perfil fácil, e que só tem sido entranhado por Costa porque o tem servido. Aliás, de perfil Marcelo é mesmo único enquanto Presidente pois tem sido interventivo como já não se via desde Ramalho Eanes. Lembremos a história desde o 25 de Abril e sem incluirmos Spínola e Costa Gomes (que foram Presidentes num contexto diferente). Eanes era um general e assim se comportou com os governos, aliás podemos dizer que a revisão constitucional de 1982 se destinou a acabar com o Conselho da Revolução e criar o Tribunal Constitucional mas acho que os envolvidos aceitam que se diga também que serviu para tirar poder a Eanes, que criticava acerrimamente as atuações dos governos e sempre com a ameaça de dissolução do parlamento latente. Soares não pretendeu governar de Belém mas teve a originalidade de conseguir fazer oposição a partir de lá. Sampaio foi um Presidente cuja maior relevância foi expulsar a má moeda e Cavaco cumpriu calendário. Mas Marcelo está pela primeira vez a governar o mais possível a partir de Belém. Basta ver as capas dos jornais “Marcelo segura Ministra”, “Marcelo já chamou Azeredo Lopes sobre Tancos”…acho mesmo que nem António Costa alguma vez sonhou que Marcelo fosse intervir tanto…As possibilidades do ambiente azedar são várias, desde a possibilidade da economia abrandar e Marcelo se voltar a aborrecer com os otimismos irritantes, a Costa se fartar de tanta intervenção ou disso lhe ser criticado internamente no partido, aos partidos geringonços não controlarem os seus ímpetos mais conservadores e se lembrarem de criticar Marcelo retirando o cor-de-rosa à relação Marcelo-Costa, etc. etc….Neste cenário vejo Marcelo eleito na mesma mas com o PS a ver-se forçado a encontrar um candidato que esteja disposto a ser humilhado.

Acho impossível antecipar tudo o que pode acontecer nos próximos anos mas existem sinais de que o status quo não ficará imutável. Os falhanços do governo em Pedrógão e Tancos e o erro estratégico de Costa ao não deixar cair os ministros ainda não denunciaram a posição de Marcelo face ao problema. Digo erro estratégico porque os ministros saíram muito fragilizados de ambas as situações, perderam autoridade e respeito nas suas hierarquias e não percebo a relevância para Costa de os manter nos cargos. Não perder a face com uma remodelação? Acho que a tê-la feito iria mostrar mesmo o oposto: uma reação pronta e enérgica de um governo que não quer perder o élan que tantos elogios lhe ia valendo e que colocava o PS já perto da maioria absoluta nas sondagens. Costa podia inclusive ter aproveitado para fazer uma remodelação maior mudando algumas caras que menos têm brilhado e dava assim um sinal importante à Sociedade, mostrando que está atento e que não irá facilitar perante os falhanços.


Pedrógão e Tancos vieram mostrar que nada dura para sempre assim como o facto da relação Marcelo-Costa não estar imune a insucessos que tirem brilho aos protagonistas. Mas Marcelo saiu incólume e mantém-se muito popular junto dos portugueses. Aconteça o que acontecer falta ainda aparecer alguém que nos faça acreditar que as próximas eleições presidenciais terão algum tipo de interesse.

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