Bem sei que ainda estamos a uns bons anos das próximas
eleições presidenciais, mas vendo o que fez Marcelo do seu mandato até agora,
tento imaginar quem terá condições para concorrer contra ele…
Esta onda de popularidade proporcionada pela nova primavera
marcelista vivida a meias com o governo (até ao debacle Pedrógão/Tancos) faria
com que, se fossem hoje as próximas eleições, nenhum peso mais pesado se
propusesse contra Marcelo. Digo “mais pesado” porque nas últimas eleições o
mais próximo disso que tivemos foi Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, que não
são quanto a mim figuras fortíssimas de um partido político ou da Sociedade.
Sampaio da Nóvoa foi amputado do apoio que António Costa lhe deu a entender que
daria e Maria de Belém não conseguiu operacionalizar uma campanha à la Hillary
Clinton.
Ainda não era na altura Marcelo o colosso popular que é hoje
(já era muito popular mas como presidente escalou os afetos a novos píncaros) e
já meteu o medo que meteu, por isso imagine-se se mantém esta aceitação popular
até às próximas eleições…!
Mas como dito, ainda faltam uns anos e muita coisa pode
acontecer. Por isso imagino dois cenários:
- (i)o Governo
sobrevive ao mau momento atual e restabelece o passeio de Marcelo e Costa de
braço dado pela baixa de Lisboa até às eleições. A ser assim vejo Marcelo
impossível de derrotar e admito mesmo que o PS, numa jogada eleitoral e para
aproveitar a simpatia do Presidente, o venha a apoiar nessas eleições (Cavaco
quando era Primeiro-Ministro apoiou Soares numas eleições presidenciais ainda
que não o tenha feito com o mesmo calculismo que penso que estará na base do
apoio do PS). PSD e CDS farão o seu papel como fizeram na última eleição,
engolindo o sapo de não se reverem na performance deste Presidente. Restará ver
se o resto da esquerda geringonça resistirá à sua tacanhez ideológica de sentir
que não podemos nem devemos ter um Presidente de direita, eles que até deveriam
estar gratos a este Presidente que tanto tem apoiado e dado condições de
trabalho a esta solução de governo…O PCP deverá apresentar sempre um candidato,
está na sua genética e é como as cassetes, têm que manter a cadência para
tentar o hipnotismo por repetição…e no limite acham que é importante para
manterem fixo e mobilizado o seu eleitorado;
- (ii) as coisas
azedam entre Presidente e Governo. Não é impossível acontecer. Marcelo não
parece mas não tem um perfil fácil, e que só tem sido entranhado por Costa
porque o tem servido. Aliás, de perfil Marcelo é mesmo único enquanto
Presidente pois tem sido interventivo como já não se via desde Ramalho Eanes.
Lembremos a história desde o 25 de Abril e sem incluirmos Spínola e Costa Gomes
(que foram Presidentes num contexto diferente). Eanes era um general e assim se
comportou com os governos, aliás podemos dizer que a revisão constitucional de
1982 se destinou a acabar com o Conselho da Revolução e criar o Tribunal
Constitucional mas acho que os envolvidos aceitam que se diga também que serviu
para tirar poder a Eanes, que criticava acerrimamente as atuações dos governos
e sempre com a ameaça de dissolução do parlamento latente. Soares não pretendeu
governar de Belém mas teve a originalidade de conseguir fazer oposição a partir
de lá. Sampaio foi um Presidente cuja maior relevância foi expulsar a má moeda
e Cavaco cumpriu calendário. Mas Marcelo está pela primeira vez a governar o
mais possível a partir de Belém. Basta ver as capas dos jornais “Marcelo segura
Ministra”, “Marcelo já chamou Azeredo Lopes sobre Tancos”…acho mesmo que nem
António Costa alguma vez sonhou que Marcelo fosse intervir tanto…As
possibilidades do ambiente azedar são várias, desde a possibilidade da economia
abrandar e Marcelo se voltar a aborrecer com os otimismos irritantes, a Costa
se fartar de tanta intervenção ou disso lhe ser criticado internamente no
partido, aos partidos geringonços não controlarem os seus ímpetos mais
conservadores e se lembrarem de criticar Marcelo retirando o cor-de-rosa à
relação Marcelo-Costa, etc. etc….Neste cenário vejo Marcelo eleito na mesma mas
com o PS a ver-se forçado a encontrar um candidato que esteja disposto a ser
humilhado.
Acho impossível antecipar tudo o que pode acontecer nos
próximos anos mas existem sinais de que o status
quo não ficará imutável. Os falhanços do governo em Pedrógão e Tancos e o
erro estratégico de Costa ao não deixar cair os ministros ainda não denunciaram
a posição de Marcelo face ao problema. Digo erro estratégico porque os
ministros saíram muito fragilizados de ambas as situações, perderam autoridade
e respeito nas suas hierarquias e não percebo a relevância para Costa de os
manter nos cargos. Não perder a face com uma remodelação? Acho que a tê-la
feito iria mostrar mesmo o oposto: uma reação pronta e enérgica de um governo
que não quer perder o élan que tantos elogios lhe ia valendo e que colocava o
PS já perto da maioria absoluta nas sondagens. Costa podia inclusive ter
aproveitado para fazer uma remodelação maior mudando algumas caras que menos
têm brilhado e dava assim um sinal importante à Sociedade, mostrando que está
atento e que não irá facilitar perante os falhanços.
Pedrógão e Tancos vieram mostrar que nada dura para sempre
assim como o facto da relação Marcelo-Costa não estar imune a insucessos que
tirem brilho aos protagonistas. Mas Marcelo saiu incólume e mantém-se muito
popular junto dos portugueses. Aconteça o que acontecer falta ainda aparecer
alguém que nos faça acreditar que as próximas eleições presidenciais terão
algum tipo de interesse.

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