segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Cor da Imprensa

Tem sido comum encontrarmos quem opine e escreva na classe jornalística e política que o atual governo tem beneficiado de uma imprensa permissiva, desculpante e até que, até ao debacle Pedrógão/Tancos, vinha preferindo cavalgar e manter a onda do otimismo, mais do que ambicionando ser honesta com o passado recente. Dizem que levava o governo ao colo e que permitiu ao presente elenco governativo ter os resultados económicos que apresenta e que lhe dão o brilho cavalgado…

É verdade. Em geral este governo (como aliás tem sido comum a outros governos socialistas que se seguiram a governos de direita que serviram para endireitar as finanças) tem gozado de um estado de graça por parte da imprensa invejável. Todos os méritos lhe são atribuídos, “quase” todas as falhas lhe têm sido perdoadas e, apenas com os fracassos recentes já mencionados, alguns jornalistas tiveram o pejo de cumprir com a obrigação de dizer a verdade: o governo falhou. E claro, os suspeitos do costume que alinham em todo o lado puderam então ter as condições para vir a terreiro dizer que afinal o “Rei vai nu” e que muito mais já se notava estar errado etc…

Assim é o País, assim é a classe, e assim é a imprensa. Mas que imprensa temos nós? Deixo a minha opinião, facilmente descartável por quem não a considerar como tal (é a minha) ou que não é bem baseada etc… É a minha.

Olhando (e porque os prefiro na análise política) para os semanários, o que temos? Desde logo a Instituição (e ainda força dominante): O velho (e agora de novo) “Espesso”! Sobreviveu a tudo. Desde nos tempos de Saraiva ter sobrevivido ao Independente de Portas e ME Cardoso, o qual tinha as manchetes que faziam as pessoas esperarem pelo sábado para comprar aquele jornal, ao Sol que com Saraiva conseguiu ter o mesmo efeito nos tempos das “faces de Sócrates” na capa (e que também levava as pessoas a esperar pela abertura das bancas à sexta-feira na altura) e a todas as mudanças editoriais que as decisões de gestão da Impresa, melhor ou pior tomadas, com maior ou menor critério de gestão, foi tomando.

É um jornal que considero ter o seu contraditório assegurado. Nunca senti que Ricardo Costa tivesse uma cor ou posição política que exigisse muita compensação, e mesmo por outros lados mais de esquerda sempre achei o jornal equilibrado. Nos últimos anos e sobretudo desde a queda de Sócrates senti pessoalmente (e repito na minha opinião) menos equilíbrio mas não é ali que identifico mais presente a vénia atual feita ao governo. Essa noto-a mais, e de sobremaneira, nos diários. Mas fica também este ponto mais aberto para o rebate, pois é opinião livre.

O Sol é para mim o “outro semanário” de referência do momento. Já não tem o peso dos tempos áureos do “face oculta em direto”, nem tem já o grupo financeiro forte estrangeiro que lhe protegia os costados à época, sendo agora mais dependente da estrutura empresarial que tem por trás, que começou no seu atual Diretor e demais empresários familiares corajosos que se envolveram. Esta falta de “peso empresarial”, e de despreocupação com a necessidade de lucros que imperou noutros tempos fazem-se sentir em algumas características do jornal, desde logo na aparente nudez dos seus suplementos e na dificuldade de investimento nalgumas rubricas.

Confesso contudo que ainda é o jornal da minha preferência. Talvez porque sou uma pessoa de hábitos e há anos que me sinto habituado à linha editorial de Saraiva, que apesar de já não ser o Diretor ainda tem um jornal muito “desenhado” (poderia dizer arquitetado mas era só maldade com o complexo que sempre sentiu a classe jornalística nutrir por si por ser arquitecto) por ele.
Mas vejo se calhar este jornal mais prejudicado no seu contraditório. Tentemos “ler/perceber” o jornal: a capa mantém a sua tentativa de chamar a atenção de forma imediata e de fazer o leitor querer comprar o jornal sem abrir o jornal na banca (algo que já vem de há muito tempo e aprendido com o Independente); segue-se a coluna do atual Diretor Mário Ramires, como tem e deve ser; de seguida a de Saraiva enquanto Colaborador que é agora, Diretor fundador e portador do peso e interesse político que mantém. Fazendo aqui uma pausa e opinando pessoalmente sinto Ramires mais ao centro (da “nossa política nacional” e não do conceito internacional de linha política) e Saraiva mais à direita, apesar de eu achar que o mesmo sempre se considerou de esquerda mas que se desiludiu muito com Sócrates e com o PS desde esse momento, tendo ao mesmo tempo ganho muita consideração pelo “mouro” Passos. De seguida neste jornal temos algumas peças dos jornalistas com mais cartilha (Felícia Cabrita, Ana Petronilho entre outros) e a primeira crónica das que se seguem aos pilares, assinada por Ana Sá Lopes que alguma maldade diz que tem aquele lugar mais por antiguidade que outra coisa mas são opiniões de pessoas que de certo desconhecem a sua experiência no meio e sapiência na abordagem aos temas.

Mas de onde vem o desequilíbrio no contraditório parte do já descrito e do que se lhe tem seguido. A estrela emergente, de seu nome Sebastião Bugalho, parece-me claramente pouco ao centro. Assina notícias com peso e a sua crónica é já a quarta na ordem do destaque. Sinto-o claramente mais à direita e desiludido com um país no qual as pessoas parecem ter vergonha de admitirem que o são (de direita). Critica e defende o PSD, protagonistas e ocultos, Passos e os seus assumidos e falsos opositores. Consegue entrevistar Faragge e Daniel Oliveira com a mesma objetividade e sem deixar convicções pessoais definirem o rumo da entrevista. Mas ele está lá, e noto-o repito como a estrela emergente, por mérito próprio e trabalho feito, e de direita. E gosto de ler o que pensa e escreve.

No entanto, seguindo aquela Ordem, partindo de Ramires, subindo no tom com Saraiva e indo dar a Bugalho, acho que a linha do jornal fica com uma linha muito definida (se a seguir só lermos Sofia Vala Rocha então mais pronunciada fica). Sim, sei que muitos mais escrevem no mesmo jornal e que é dado espaço à esquerda, alguns mesmo assumindo isso mesmo, que ali estão para serem contraponto. Mas o jornal é aquele, e nota-se: experimentem não ler as colunas de opinião e apenas ler as notícias e acho que tal ficará ainda mais óbvio.

Mas isto e este jornal é negativo? Não. Com a imprensa nacional atual com cores e sentimentos tão declarados, preferindo a maioria seguir com as marés e ser gostada por todos a começar pelo governo, o Sol tem um papel marcado e importante. Porque ainda há quem não ande a dormir e saiba que há realidades que só andam a ser escamoteadas, por mais que os Galambas, Pedros Nunos Santos e Miguéis Tiagos continuem a aparecer sempre zangados com os austeros culpados de todos os males….

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